Olhando as fotos que Shiiti apresenta ao lado dos desenhos, uma delas acabou me chamando a atenção. Ali nenhum elemento direto da natureza, como nas outras fotos, aparecia: eram tecidos dobrados, apertados uns nos outros num traçado bonito. É que quando a gente vê os desenhos do Shiiti, fica pensando imediatamente nas fotos, pensando que ele tira da natureza formas que depois se transformam em aquarelas, trabalhos em nanquim, manchas e linhas no papel. Essa é uma tradição antiga à qual a gente se acostumou, essa ideia de imitar a natureza, como se ela estivesse fora do próprio corpo. Mas não é isso que esse artista faz: ele descobre, depois do desenho pronto, as semelhanças possíveis, as ranhuras e tramas, as texturas e linhas que qualquer “natureza”, mesmo a do pano pronto (talvez de fibra sintética, vai saber) e empilhado ali por perto, carrega em si. Conversando com ele, percebi também que a ideia de memória, memória das coisas, dos panos, do âmbar, do nanquim e da teia de aranha, a nossa própria memória, enfim, já existe em tudo, falta descobrir o eco entre nós e o mundo, inventar as lembranças depositadas de antemão no corredor da vida.


Esses dias uma frase da Clarice Lispector tem me perseguido: “oh, ela sabia cada vez mais”. Isso me bate de novo agora quando encaro as “Cartas para mim” de Shiiti, os trabalhos mais antigos desse conjunto aqui exposto, aparentemente redescobertos por ele quase dez anos depois de escritos e desenhados, numa sobreposição de traços que impede a leitura. É ele que diz: “eu mesmo não consigo ler o que eu escrevi e acredito que tenho uma experiência parecida com as pessoas que veem pela primeira vez. Reconheço que são palavras, identifico algumas letras e fico curioso pra saber o que tinha ali”. A revelação, então, tanto no desenho de linhas e manchas, quanto no das cartas, é um processo de reinvenção da memória. Estranhamente, ao contrário do que podemos pensar, frustrados em não mexericar a vida íntima do artista, há nas cartas, tanto quanto nas séries de desenhos com linhas e manchas, uma generosa dádiva, um convite à invenção da memória que, por outro lado, já existe em nós e em tudo. O desenho (de palavra, de imagem) é uma revelação, uma fonte de criação de sentido pra vida, um jeito a partir do qual a gente sabe cada vez mais.

Voltando à natureza, se existe aí nesses trabalhos uma conexão mais imediata com ela, é pela própria ideia de “ramificações” que vai no título do conjunto: Shiiti deixa a mão correr sem se dar conta previamente do que virá, deixa os traços irem criando ramificações no papel que eu e você podemos percorrer como quisermos, ou como necessitamos, porque, na verdade, assim como as plantas buscam crescer, a gente quer, a gente precisa de saber mais. A gente se ramifica no que vê, ao mesmo tempo em que, por nos espalharmos como plantas na terra, encontramos nossas próprias memórias, nossas raízes, estranhamente apresentadas pelo outro, pelo desenhista que nos ensina sobre quem somos, o que podemos descobrir de nós mesmos em seus traços, nossas memórias e nosso futuro (ramificar-se é estender-se pra diante, afinal). Não é à toa, talvez, que a única palavra que eu identifiquei na escrita embolada de Shiiti foi “tempo”, matéria e forma de plantas e pessoas. Sim, eu, você e Shiiti descobrimos o tempo por aqui, sabemos cada vez mais.
Marta Neves